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Opinião

A flor de manjerona

Por Marli Blankenheim
Publicado em: 29.11.2021 às 03:00

É uma horta íntima. Não fico alardeando: passe lá em casa para ver como está linda minha horta. Na verdade não tem canteiros alinhados. Misturados estão os pés de rúcula, os tomateiros, a sálvia, mudas de chicória, salsinha, cebolinha, alguns pés-de-dália e, na falta de um espaço mais ensolarado, misturei bulbos de gladíolos.

Desenvolvi uma técnica pessoal para colher. Não corto, de vez, um pé de alface ou de rúcula, tampouco degolo o pé-de-couve. Vou tirando algumas folhas, bem na medida do que pretendo consumir. Vai durar bastante a minha produção. Mas o que me inspira a escrever sobre o tema é a delicada flor de manjerona. Nunca havia reparado nas tão mimosas flores azuis. Numa corrida, pegava uns galhinhos e temperava o feijão. Fiquei muito encantada com os inesperados buquês. Eles me trouxeram uma inesperada inquietude: como eu nunca reparara nas flores? Sempre vendo só as folhas e uma única função: temperar.

Enquanto buscava a resposta, lembrei-me de uma história recém contada. A moça me falava do pai, lembrava dele com tristeza e desconforto, Era um homem que metia medo. A mãe, acácia mimosa vivia à sombra daquele altivo pinheiro. O clima da casa era regulado pelo humor dele. Até mesmo o tom de voz que se podia falar. Era sempre um tal de "pergunta pro teu pai", "teu pai não aprova", "não é do feitio do teu pai" e assim ia. Ela não se queixava dele. Achava natural fazer-lhe a vontade sem nenhum questionamento. Dizia que, quando o marido convida para sair, a mulher deve deixar o que está fazendo e ir. Porque eles só convidam três vezes, depois vão sozinhos e nunca mais se lembram de convidar. Qual a lógica da argumentação? Somente ela sabia, mas parecia convicta.

O olhar da filha percebia um homem frio e egoísta, independente, autoritário, uma pedra. Não podia entender de onde a mãe tirava tanta paciência e complacência. Muitos anos depois veio a surpresa.

A mãe começou a sentir umas dores no estômago. O médico resolveu interná-la para fazer os exames. O diagnóstico foi terrível e fulminante. Ela não voltaria para casa e também já não havia o que fazer. Pois bem, desde o dia em que ela foi internada, o pai não saiu mais da cama e tampouco se alimentou. Pressentia o que estava por vir.

Dez dias depois da morte dela ele também partiu. Naquela semana, o pinheiro deixou cair os espinhos, mas ninguém percebeu.Somente agora entendia algumas falas dela em favor dele.

Que crescera sem mãe, vivera "de favor" na casa de parentes, sempre jogado ao "Deus dará". Sim, ela conseguira vê-lo por inteiro, por isso o compreendia tão profundamente e, a presença dela fosse tão vital para ele.

As flores azuis da manjerona acordam meu olhar. Elas me pedem que amplie minha percepção, aprofunde meu entendimento. Elas me relembram que as pessoas, como as plantas, têm uma estação para florir.


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